A exposição

 A exposição MEMÓRIAS CURITIBANAS: os Moreira de Freitas e a Fundação da Sociedade 13 de Maio é uma jornada através do tempo, conduzida pelas lembranças de infância e pelas descobertas que revelam a trajetória de meu bisavô, Vicente Moreira de Freitas. Mais do que um resgate genealógico, essa história representa pertencimento, resistência e identidade. 

As primeiras memórias sobre Vicente surgiram na minha infância, envoltas na neblina gelada das manhãs curitibanas. Órfão de pai, foi minha mãe quem me apresentou os primeiros fragmentos sobre o lado paterno da família. Uma recordação vívida remonta a um dia frio, quando eu tinha cerca de sete anos. Em meio ao silêncio das ruas de paralelepípedo, minha mãe me levava pelas alamedas do cemitério São Francisco de Paula. Diante do mausoléu da família, conheci a figura do meu bisavô, um dos poucos negros sepultados naquele local. O frio contrastava com o calor das histórias que começavam a ser contadas. Quem era Vicente? Que caminhos teria percorrido até ali? Ao olhar ao redor, vi lápides com sobrenomes imponentes e imagens esculpidas, mas nenhum outro rosto negro. Aquela singularidade despertava orgulho e inquietação — uma curiosidade que me acompanharia por toda a vida. Cada visita tornava-se um mergulho no passado, uma tentativa de dar forma às sombras que pareciam envoltas no mesmo nevoeiro das manhãs curitibanas. 

As memórias familiares, contadas por minhas tias paternas, pintavam um retrato heróico de Vicente: um homem que teria vindo da África, separado de seu irmão, e que trabalhou na reforma da Catedral de Curitiba. Diziam que, num ato de revolta, marretou uma placa de mármore da igreja, deixando ali um símbolo silencioso de resistência. Mais tarde, a pesquisa revelou outra verdade: Vicente nasceu no Brasil em 1857, filho de Matilde, uma mulher escravizada, e provavelmente de seu senhor, João José de Freitas. Ainda assim, as narrativas familiares seguiam ecoando a força e a coragem desse ancestral. 

 A Busca pela Verdade 

Já adulto e movido pelo desejo de conhecer melhor minha ascendência, iniciei uma pesquisa em 2012. Ao digitar o nome do meu bisavô num site, descobri sua presença na centenária Sociedade Beneficente 13 de Maio, uma das mais antigas organizações negras do Brasil. Ele constava como um dos fundadores da entidade, o que me levou a um evento comemorativo no dia 13 de maio daquele ano. Lá me apresentei como bisneto de Vicente e fui recebido com entusiasmo. 

A pesquisa me conectou a outros descendentes de Vicente, como André Brito, que já possuía sua certidão de batismo e contribuiu com documentos essenciais. Maurício Brito, por sua vez, trouxe Elin Magyar, uma jovem húngara também descendente de Vicente, ampliando a pesquisa para além das fronteiras do Brasil. O reencontro entre familiares separados pelo tempo e pela distância 

fortaleceu os laços e proporcionou uma nova compreensão sobre a trajetória de Vicente e seu impacto na identidade de seus herdeiros. 

Além dos descendentes diretos, a pesquisa contou com o apoio de historiadores e pesquisadores comprometidos com a memória afro-brasileira. Pamela Beltramin e Thiago Hoshino forneceram análises históricas e perspectivas acadêmicas que enriqueceram a investigação. Suas contribuições ajudaram a contextualizar a vida de Vicente no cenário social e político da época, destacando sua importância dentro de um processo mais amplo de resistência e afirmação da comunidade negra no Brasil. 

Vicente Moreira de Freitas e a Sociedade 13 de Maio desempenham papel essencial na história da população negra de Curitiba. Desde sua fundação, a entidade tem sido espaço de acolhimento, resistência e valorização da identidade negra, reunindo gerações no combate às desigualdades. A trajetória de Vicente reflete não apenas os desafios enfrentados no pós-abolição, mas também a luta contínua por direitos e reconhecimento. Seu legado permanece vivo, ecoando nas atividades da sociedade e na memória de quem segue trilhando esse caminho. 

Convidamos você a embarcar nessa viagem no tempo e descobrir como a memória pode ser uma poderosa ferramenta de resistência, pertencimento e identidade. 

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