Um território negro no centro de Curitiba

CLUBES SOCIAIS EM CURITIBA NO COMEÇO DO SÉCULO XX

A 13 de Maio é um dentre os diversos Clubes Sociais Negros existentes pelo Brasil. Eles desempenharam um papel essencial para a comunidade negra e a sociedade brasileira, suprindo lacunas deixadas pelo Estado. Surgiram como territórios negros que se contrapunham à ordem social vigente, especialmente a partir do século XIX, proporcionando ascensão econômica, política e social aos seus membros. Além de fortalecerem o sentimento de pertencimento, afirmavam uma identidade negra positiva, impulsionando a mobilidade social e elevando a autoestima dos associados, que seguiam padrões rígidos de comportamento, moralidade e convivência. Dessa forma, esses espaços contribuíram para a formação de uma classe média negra emergente.

Esses territórios negros eram mais do que locais de sociabilidade e visibilidade; constituíam espaços de territorialidade da população negra. Assim, as edificações dos Clubes Sociais Negros, construídas por trabalhadores negros ao longo dos séculos XIX e XX para lazer e defesa de direitos, materializam essa territorialidade. Esses espaços, erguidos de maneira estratégica, tornaram-se verdadeiros “monumentos”, marcando um tempo e um território, ao mesmo tempo em que reafirmavam a identidade e a resistência da comunidade negra.

Você já refletiu sobre o local geográfico que a Sociedade 13 de Maio ocupa?

A sede física da Sociedade 13 de Maio está situada em um entroncamento de ruas, mais conhecido como “cruzamento em T”. Essa informação pode parecer genérica, mas, ao olharmos com atenção, é possível ver que a atual sede física da 13 de Maio fica ao final da Alameda Princesa Izabel – assim nomeada em homenagem à responsável por ter assinado a Lei do Ventre Livre, em 28 de setembro de 1871, e a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.

Diante desse contexto, surge a hipótese: a localização da Sociedade 13 de Maio foi determinada por escolhas estratégicas ou se deu ao acaso? 

Buscamos nas fontes históricas uma resposta para essa hipótese de pesquisa, e concluí que o local que a 13 de maio ocupa no território urbano – ao final da Alameda Princesa Isabel – de Curitiba não é um acaso. Vamos fazer um exercício histórico, com estudo de fontes, para entender essa conclusão!

Quando e onde a Sociedade 13 de Maio foi fundada?

A 13 de Maio foi fundada em 6 de junho de 1888, na residência de João Batista Gomes de Sá, um homem negro, conhecido como João da Fausta. Sendo assim, se pensarmos qual é o local de fundação ou a “primeira sede” da 13 de Maio, não devemos referenciar o espaço geográfico que ela ocupa atualmente, mas sim a casa de Gomes de Sá, que estava localizada na Rua do Mato Grosso (atual Rua Comendador Araújo). 

Por quantas sedes a Sociedade 13 de Maio passou?

A primeira edificação da sede do Clube Treze foi construída apenas em 1913, viabilizada pela doação de tábuas feita pela Baronesa do Serro Azul, em 1906, e pelos esforços de Vicente Moreira de Freitas, um dos fundadores e coordenador da obra. No entanto, desde 1896 a sociedade já possuía o terreno, que havia sido doado pela prefeitura de Curitiba na Rua Colombo (atual Clotário Portugal, 274).

Antes de estabelecer sua sede definitiva — que permanece no mesmo local até hoje —, os membros do Clube Treze se reuniam nas casas de seus fundadores. Conforme antes explicado, a primeira sede funcionou na residência de João Batista Gomes de Sá. Posteriormente, a sede foi transferida para a casa de outro fundador, Candido Ozório. Por fim, os encontros passaram a ocorrer em uma casa localizada na atual Praça Generoso Marques. Portanto, foram diversas sedes antes do estabelecimento definitivo na Rua Colombo.

Em 1947, a Rua Colombo mudou de nome: passou a ser a Rua Desembargador Clotário Portugal. O Decreto-Lei n. 182 de 31 de outubro de 1947, além de fazer essa mudança de nome, transferiu a então Rua Colombo para o bairro do Ahú.

Quando a Alameda Princesa Isabel foi assim denominada?

Conforme consta na obra Dicionário Histórico dos Logradouros de Curitiba (2024), de Ernani Costa Straube, em 28 de julho de 1988 a Câmara de Curitiba decidiu dar o nome Princesa Isabel à antiga Rua do Serrito (Rua do Serrito (Mapa 1894) virou a Conselheiro Barradas (mapa 1927) e depois Rua Pres Carlos Cavalcanti (mapa de 1944), como homenagem à Princesa Isabel pela extinção da escravização no Brasil. 

Em Alma das Ruas (1977), a professora e historiadora Maria Nicolas registrou que a Alameda Princesa Isabel recebeu esse nome a partir da Lei Municipal 1666 de 17 de agosto de 1958. O prefeito, à época, era Elias Karam.

Todavia, quando analisamos essa fonte histórica, é possível ver que a alameda já homenageava a Princesa Isabel: era Alameda Dona Isabel. Conforme disposto no artigo 1º desta Lei, a pequena mudança da denominação, para incluir “Princesa”, era necessária porque essa medida representa uma verdade histórica.”. A seguir, o inteiro teor da Lei:

LEI Nº 1666/1958 – Data 17/08/1958

“DÁ A DENOMINAÇÃO DE PRINCEZA IZABEL, À ATUAL ALAMEDA DONA IZABEL, DESTA CAPITAL.”

A Câmara Municipal de curitiba, Capital do Estado do Paraná, decretou e eu, Prefeito Municipal sanciono a seguinte lei:

Art. 1º – É o Sr. Chefe Executivo autorizado a dar o nome de Almeda Princeza Izabel, à atual Alameda Dona Izabel, porque essa medida representa uma verdade histórica.

Art. 2º – A presente lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

PAÇO DA LIBERDADE, em 17 de setembro de 1.958.

ELIAS KARAM

Vice-Presidente da Câmara no Cargo do Exercício de Prefeito Municipal.

Nota: Este texto não substitui o original publicado no Diário Oficial.

Data de Inserção no Sistema Leis Municipais: 18/03/2010

Sendo assim, a partir desta lei e dos trabalhos de Nicolas e Straube, é possível concluir que a “Alameda Princesa Isabel” é a segunda nomenclatura deste logradouro, que antes se chamava Alameda Dona Isabel.  Segundo Ernani Costa, data de 9 de novembro de 1912 o projeto que denomina o “Boulevard São Francisco de Paula” como Alameda Dona Isabel.

Atual localização da Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio

1 A primeira sede da 13 de Maio funcionou na casa do fundador João Batista Gomes de Sá, na Rua do Mato Grosso (atual Comendador Araújo), porém o endereço exato é desconhecido. A segunda sede também ficava na região central, na casa de Candido Ozório, outro fundador, e o endereço exato é incerto.

2 Localização do terreno doado em 1896 pela Prefeitura de Curitiba (atual Clotário Portugal, 274), onde a Sociedade 13 de Maio foi construída.

3 Antes de 1913, os associados se reuniam nas proximidades do do antigo Mercado Municipal, atual Praça Generoso Marques.

4 A Sociedade Protetora dos Operários

Mapa de Curitiba de 1894 com indicação da Sociedade 13 de Maio

Mapa de Curitiba de 1927 com indicação da Sociedade 13 de Maio

O que veio “primeiro”: a denominação da Alameda Princesa Isabel ou a 13 de Maio?

A análise das datas sugere que a Sociedade 13 de Maio já estava consolidada antes da renomeação da via para Alameda Dona Isabel. A fundação da entidade em 1888 e a doação do terreno pela prefeitura em 1896 indicam que a escolha da localização não foi influenciada pelo nome da via, mas sim por outros fatores, como a dinâmica urbana da época e a necessidade de um espaço para a organização da comunidade negra. A ocupação desse espaço

pela sociedade demonstra um processo ativo de inserção na cidade, fortalecendo a presença de uma comunidade que buscava consolidar sua atuação social e cultural em um período pós-abolição.

Por outro lado, a mudança do nome da rua em 1912 não pode ser vista como um evento aleatório. Ainda que não seja possível apontar de forma definitiva um motivo explícito para a escolha do nome, a análise das fontes indica que essa decisão guarda relação simbólica com a presença da Sociedade 13 de Maio na região. O fato de a via ter sido renomeada para Alameda Dona Isabel um ano antes da inauguração da sede da sociedade, em 1913, reforça a possibilidade de que essa alteração tenha sido, de alguma forma, influenciada pela presença da entidade no local.

Além disso, a escolha de nomear a via em homenagem à princesa que assinou leis fundamentais para o fim da escravização – e cuja imagem foi historicamente associada à abolição – não pode ser dissociada do contexto no qual a Sociedade 13 de Maio já atuava. Esse aspecto sugere que a relação entre o nome da rua e a entidade não se deu por mero acaso, mas sim dentro de um processo dialógico de construção de significados que envolvia tanto as políticas urbanas da cidade quanto a presença e resistência da comunidade negra no espaço público.

Dessa forma, a denominação da via não apenas reforça a importância simbólica desse território na cidade, mas também evidencia como a memória e a história negra de Curitiba foram incorporadas (ou, em alguns casos, ressignificadas) na formação do espaço urbano.

O que esse exercício historiográfico demonstra?

Demonstra que (re)aprender a cidade por meio de seus mapas e denominação de logradouros (ruas, alamedas, avenidas e praças, dentre outros) é um exercício fundamental para ampliar a compreensão sobre a história da cidade e os diferentes grupos que contribuíram para sua formação. No caso de Curitiba, isso significa olhar para além das narrativas tradicionais e reconhecer a presença e a participação da população negra na construção da cidade.

Referências:

NICOLAS, Maria. Alma das Ruas. Curitiba: Imprensa Oficial do Estado do Paraná, v. 1, 1977

STRAUBE, Ernani Costa. Dicionário Histórico de Logradouros de Curitiba. Edição do Autor, 2024, p. 193.

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